depoimentos

O nosso sertão, Elevado Costa e Silva (minhocão)

Neste tempo de investigações, dentro deste sertão de São Paulo, somos todos antropólogos; seguimos com nossas cargas de experiências extensas ou vagas, caminhando pelo sol e concreto, descobrindo e identificando as ervas e plantas daninhas que surgem a cada passo, cada andar.
Uma vida orgânica surge rasteira pelo Elevado Costa e Silva, ocupando rachaduras, buracos, vãos, ocupando milímetros que rapidamente se tornam centímetros e, se deixasse lá, onde estão, seriam metros de uma existência sem fim que se multiplica como monotipias: impressões únicas, mas similares, que marcam e transformam a superfície deste espaço urbano.
O tempo dentro do Elevado é feito de detalhes, pormenores que se somam com o extenso concreto, céu parcialmente aberto (às 7h da manhã) e prédios; um homem e um cachorro assistem o dia amanhecer da janela de um prédio, uma árvore se dependura do lado de fora do minhocão com as raízes expostas.


Isadora Ferraz, artista convidada.
























O canto do asfalto é um deserto. No canto do deserto do asfalto vivem as plantas que insistem. Essas, chegam sozinhas e acompanham o homem em silêncio. São especialistas limítrofes. Estão (n)a margem. Possuem relógios absolutos, fotossistemas precisos e válvulas de alta performance.

Dentro das plantas (d)a margem do asfalto, a pressão da água é mais extrema do que a do ar dentro dos pneus que passam.

O limite é uma faixa de asfalto ou um canto de rua.
No limite há luz demais, ou nenhuma. Quase não há água. Há choque, quebra, barreira. Mas o limite é sempre uma faixa, onde cabem todas as plantas especializadas em quase-nãos. Uma faixa fecunda para jardins extremos.



Vitor Barão
, biólogo e fotógrafo



























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